O que a caipirinha tem a ver com o H1N1?

Por Maurício Carneiro

A caipirinha é o nosso drink nacional e pode ter sido criada como remédio, para combater uma crise de H1N1 em São Paulo, no ano de 1918. Saiba um pouco da história e das curiosidades sobre essa bebida tipicamente brasileira.

A origem da bebida

Existem diferentes versões para a origem da bebida. Entre as fontes acadêmicas, é consenso que a caipirinha foi inventada no interior de São Paulo, havendo, no entanto, divergências quanto à razão de sua origem e à região específica no estado em que ela teria surgido.

Então, vamos começar pelas possibilidades mais mencionadas em pesquisas, que são duas:

A primeira diz que a caipirinha foi criada inicialmente como remédio, pelo fazendeiro Paulo Vieira na cidade de Piracicaba, no interior do estado de São Paulo, em 1918. Nesta época, quando alguns dos trabalhadores dele adoeceram por conta de um surto de gripe espanhola (infliuenzavirus H1N1), ele teria feito uma mistura com limão, alho e mel. No entanto, ao invés do álcool, que era muito utilizado para acelerar o efeito terapêutico, ele teria colocado a cachaça. “Até que um dia alguém resolveu tirar o alho e o mel. Depois, acrescentaram umas colheres de açúcar para adoçar a bebida. O gelo veio em seguida, para espantar o calor”, explica Carlos Lima, diretor-executivo do Ibrac (Instituto Brasileiro da Cachaça).

Na segunda versão os historiadores declaram que a caipirinha foi criada por fazendeiros latifundiários de Piracicaba (SP), durante o século 19 e não como remédio, mas como um drinque local para grandes e importantes comemorações, enaltecendo a força da cultura canavieira na região. Um grande glamour  foi dado à caipirinha, logo que foi criada, pois era vista como uma bebida regional de excelente qualidade, sendo, por um tempo, substituta do Whisky e dos Vinhos importados.

Uma outra versão, não considerada pelos historiadores, citada em matéria do jornal paranaense Gazeta do Povo, relata outra história, que coloca a origem do coquetel ainda mais para trás na linha do tempo, afirmando que marinheiros que passavam pelo Rio de Janeiro adicionariam limão às doses de cachaça que bebiam para evitar o escorbuto, e que teria sido uma questão de tempo até ser adicionado o açúcar. Tal referência, no entanto, não menciona quais historiadores ou acadêmicos defendem tal tese.

Caipora, caipira e caipirinha

Mas quando é que o nome de caipirinha foi usado pela primeira vez para rotular o drinque?  A palavra “caipira” é uma corruptela do tupi kaa’pora, “habitante do mato”. Dessa raiz derivam outros termos como “caipora” e “curupira”. Caipira era o termo que designava o habitante do campo, morador ou trabalhador da zona rural.  Como a caipirinha nasceu nas regiões interioranas, o que se aceita, atualmente, é que seu nome derivou a desses termos tupis.

Caipirinha dentro da lei

Você sabia que o drinque brasileiro mais famoso no mundo tem uma lei específica para determinar seu padrão?

É incrível como um drinque de tamanha simplicidade conquistou brasileiros e estrangeiros na mesma intensidade, mas poucos que sabem da existência de uma legislação para padronizar a sua elaboração. Vamos falar sobre isso hoje.

Caipirinha é a cachaça adicionada a açúcar e limão, simples assim

É muito raro encontrar alguém que saiba disso, mas a caipirinha é regulamentada no Brasil. O Decreto 6.871, de 04 de junho de 2009 fixou em lei a sua receita. Segundo o decreto:

“A caipirinha é bebida típica do Brasil, com graduação alcoólica de 15 a 36 por cento em volume, a vinte graus celsius. Deve ser elaborada com cachaça, limão e açúcar, podendo adicionar-se água para adequar a graduação alcoólica”.

Este regulamento normativo, de aplicação em todo o território brasileiro, estabelece os “padrões de identidade e qualidade”, que deverão obedecer tanto a caipirinha comercializada no Brasil, como a fabricada para exportação.

Quanto aos ingredientes, a lei é parcialmente flexível com o açúcar. Pode-se utilizar o cristal, mascavo ou refinado, mas nunca adoçantes sintéticos.

Se não tem limão, não é caipirinha

Em relação à cachaça, estabelece-se que deve respeitar a suas características e padrões de qualidade e identidade. O limão pode ser adicionado na sua forma desidratada. O sumo do limão deve estar presente no combinado na proporção mínima de um por cento. A água é considerada um ingrediente opcional, seu uso está restringido “exclusivamente” para adequar a graduação alcoólica á margem permitida: de 15 e 36 graus. O texto, no entanto, não define se pode utilizar-se gelo.

Caipirinha, só se tiver limão.

Dessa forma, não existe caipirinha de outras frutas. Se não tiver limão, não é caipirinha!  Mas nada impede que adicionemos outras delícias da nossa terra como o maracujá, uva, abacaxi, laranja, etc. O limão dá uma harmonização perfeita para a maioria das frutas, inclusive às cítricas que acabam ficando ainda mais saborosas.

Fora do Brasil, cachaça é sinônimo de caipirinha

A Caipirinha é o drinque brasileiro mais conhecido no exterior e é a cara do nosso país lá fora. Tanto é que grande parte da cachaça exportada pelo Brasil não é consumida pura e sim usada como base para a caipirinha. Muitos europeus até confundem as duas coisas, como se fossem o mesmo produto.

Brasileiros e estrangeiros adoram caipirinha, é uma bebida perfeita. Cor, aroma, sabor, tudo combina. Além de ser ótima para se refrescar no verão, faz boa companhia não só às  comidas leves (peixes e frutos do mar) como também às mais robustas, a exemplo de feijoadas ou churrascos.

Então, que esse  drinque, tão característico da nossa terra,  continue a ganhar força e contribua para que o Brasil possa propagar ao mundo o que temos de melhor em nossa culinária e coquetelaria.

 

Maurício Carneiro

Maurício Carneiro é engenheiro mecânico e de segurança do trabalho. Especialista, estudante e apreciador de cachaças. Colunista de cachaças da CBN Paraíba, com a coluna Confraria do Copo. Proprietário do blog Rótulo Brasil, onde trabalha pela valorização da nossa bebida nacional.

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