Gregório, a Cachaça do Papa, é produzida no Brejo Paraibano

Por MAURÍCIO CARNEIRO

Cachaça paraibana, há séculos, homenageia o Papa Gregório XVI

Brejo de algodão, rapadura e cachaça

O Engenho Gregório está situado no município de Alagoa Grande- PB, na Região do Brejo da Paraíba. A cidade de Alagoa Grande integrava o município de Areia-PB até meados do século XIX, quando se tornou independente como cidade. O ano de 1864 é considerado como o ano de sua fundação, mas em 1847 já havia passado de povoado a distrito. Foi emancipada politicamente em 21 de outubro de 1864, sendo instalada, como vila, em 1865. Em 27 de março de 1908, Alagoa Grande foi elevada à categoria de cidade.

Vista parcial de Alagoa Grande. Fonte: PMAG

Segundo estudos de Emília de Rodat Moreira, em seu trabalhoProcesso de Ocupação do Espaço Agrário Paraibano“, o algodão foi a primeira cultura realmente importante na região do Brejo Paraibano. Sua produção teve início na primeira década do século XIX e constituía, já em 1817, a base econômica da região. Com o declínio da atividade algodoeira, outras culturas a sucederam, originando os ciclos da cana-de-açúcar, do café e do sisal.

No final do Século XIX, a cana-de-açúcar, antes voltada para a produção do açúcar mascavo, de auto-consumo, passou a ser utilizada como matéria-prima da rapadura e da aguardente, fabricadas pelos engenhos da região.

Celeiro do Sertão

A rapadura produzida na região brejeira era vendida para os sertões da Paraíba e do Rio Grande do Norte. Tropeiros vinham ao Brejo em comboios de burros, para comprar e vender produtos. Para se alimentar durante a viagem e também para vender, eles traziam a carne seca de bode. As tropas partiam da região carregadas de rapadura e de aguardente. Os cereais lá produzidos: feijão, fava, milho e a farinha de mandioca também eram disputados pelos comerciantes. O Brejo tornara-se um verdadeiro “celeiro do Sertão”.

Por muito tempo a rapadura foi a base da economia brejeira. Foto: Maurício Carneiro

De acordo com Horácio de Almeida, em seu livro, “Brejo de Areia: memórias de um município”, no início do século XX, os altos tributos impostos pela Assembléia da Paraíba à rapadura que saía do estado, resultou na perda do mercado do Rio Grande do Norte. A construção de açudes na região semi-árida, consumidora tradicional da rapadura, permitiu o desenvolvimento da cana-de-açúcar e a instalação de engenhos. Logo o Sertão passou a fabricar seus próprios produtos. De consumidora a região sertaneja transformou-se em produtora da rapadura, passando a prover parte do seu abastecimento. Ao mesmo tempo, uma doença (gomose), atingiu duramente os canaviais brejeiros, destruindo grande parte deles. Diante disso, os engenhos do Brejo passaram a produzir, quase que exclusivamente, a cachaça em substituição à rapadura.

A cachaça do Papa

Com a chegada da família Lemos à cidade de Alagoa Grande, por volta dos anos 1860, o Sr. Manoel Lemos adquiriu as terras do Engenho Gregório. Católico fervoroso, manteve a propriedade rural com o mesmo nome, em homenagem ao Papa Gregório XVI, cujo papado durou de 1831 a 1846. O engenho já produzia cachaça e rapadura, com cana-de-açúcar própria. Anos mais tarde, com a morte do velho Manoel Lemos, seu filho, Fenelon Lemos, herdou a propriedade e continuou com o fabrico da cachaça. A qualidade da aguardente era conhecida nas redondezas e pelos sertões afora. Chamavam-na de cachaça “do Gregório” ou cachaça “do Papa”. Assim atravessou todo o Século XX, sendo vendida a granel, mas nunca descuidando da qualidade que a tornou famosa.

Fogo morto

Alexandre Lemos, integrante da 5ª geração da Família Lemos, hoje toca a administração do engenho, juntamente com um grupo de sócios. Ele nos conta que o engenho permaneceu um período de “fogo morto” para produção da cachaça. Durante a época do Programa Proálcool, iniciado em 1975, os engenhos atuavam apenas  como fornecedores da cana-de-açúcar para as usinas produtoras do álcool combustível. Assim permaneceu até o ano de 2007, com o fim do programa. Nessa época as atividades cachaceiras do engenho foram retomadas.

A qualidade sempre foi um padrão na produção. Foto: Maurício Carneiro

A cachaça Gregório era comercializada a granel, porem, mesmo sem o registro do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) ela era submetida a análises físico-químicas. Isso nos mesmos laboratórios que faziam as análises das cachaças registradas. “Sempre estávamos enquadrados nas especificações exigidas para as cachaças registradas”, declara Alexandre Lemos. Por conta desse apuro a Gregório era muito respeitada e largamente consumida dentro e fora do estado da Paraíba.

Tudo parecia tranquilo e ajustado, como se abençoado pelo Papa, foi quando uma mudança brusca ocorreu: num ambiente de grande competitividade em que está inserido o negócio da cachaça na Paraíba, o fato de um produto ou engenho se sobressair diante dos demais causa motivação para uns e desconforto para outros. Assim, em 2012, o engenho recebeu a visita dos fiscais do Mapa, motivo: foram alertados sobre a produção de cachaça clandestina no engenho. Determinaram que, partir daquele momento, o engenho não poderia mais comercializar o produto até que houvesse a sua regularização. Para tristeza de Alexandre Lemos, dos seus sócios e de milhares de fieis consumidores, os reservatórios da Cachaça do Papa foram lacrados.

Atiraram na manga e acertaram na casa do marimbondo

Detalhe de Alambique do Eng. Gregório. Foto: Maurício Carneiro

Diante do dilema de fechar as portas e partir para outro negócio ou se manter firme na tradição da família, Alexandre Lemos e seus sócios optaram pela segunda alternativa: resolveram se legalizar. Trabalharam por todo o ano de 2012 e parte de 2013  na regularização do negócio. Investiram tempo, dinheiro e fé, até que em  junho de 2013 conseguiram toda a documentação que  garantia o título de produtor formalmente legalizado junto ao Mapa. Nascia assim a Cachaça Gregório registrada. Seu primeiro lote foi para as prateleiras dos estabelecimentos comerciais em janeiro de 2014. Um produto que, certamente, agradaria até o Papa que lhe deu o nome. O produtor diz: “essa foi a melhor coisa que me aconteceu. Não fosse essa abençoada denúncia talvez eu estivesse até hoje fabricando clandestinamente. Atiraram na manga e acertaram na casa do marimbondo”, arremata ele com bom humor.

Reconhecimento nacional

Com qualidade já reconhecida, mesmo antes da formalização, as cachaças do Gregório logo conquistaram copos e paladar dos amantes da boa cachaça. São apresentadas, nas versões branca, em embalagens de 275 ml e 700 ml, as de carvalho, são embaladas apenas em garrafas de 700 ml.

As cachaças paraibanas se caracterizam por sua potência alcoólica, associada ao frescor e baixa acidez, assim, a Gregório atesta sua origem no pujante, porém comportado, teor alcoólico de 45%.

Mesmo com pouco tempo no mercado, o reconhecimento da qualidade não tardou. Já no primeiro concurso que participou (o 17º Concurso de Vinhos e destilados do Brasil, São Paulo) a Gregório Premium (carvalho)  conquistou a medalha de prata na categoria “Cachaça Envelhecida em Carvalho”. Isso demonstra que muita coisa boa ainda vem por aí.

Planos para  o futuro

O Engenho centenário possui modernos equipamentos de produção. Ampliou e melhorou suas áreas de armazenamento e envelhecimento e planeja, para este ano de 2020, alçar vôos mais ousados.

Sala de destilação do engenho. Foto: Maurício Carneiro

Instalado numa bela e preservada área verde de Alagoa Grande, os sócios planejam explorar o turismo rural e etílico. Segundo Alexandre Lemos, existem projetos de recepção de visitas guiadas às áreas internas e externas do engenho. Um ponto de venda e degustação também será instalado, além de um espaço para cursos e palestras.

Hoje, o apreciador das cachaças premium não se atêm ao simples degustar do líquido. Observa-se que esse consumo caminha para a conjunção entre elementos de diferentes setores econômicos. Por um lado a experiência sensorial proporcionada nas degustações, aliada à gastronomia local (possibilitando excelentes oportunidades de harmonização com a cozinha regional) e, por outro, o enriquecimento dessa experiência, com o turismo nas localidades de produção das bebidas. Temos, assim, um ciclo virtuoso, onde todos ganham.

Unindo qualidade, apuro técnico, respeito e cuidado com o meio-ambiente e disseminação de conhecimento, a Gregório (Cachaça do Papa) cria sua identidade própria, que vai muito além da simples cachaça e agrega à sua marca conceitos absolutamente caros e indispensáveis aos novos tempos e aos novos consumidores.

Um grande e abençoado brinde a mais essa joia paraibana!

Maurício Carneiro

Maurício Carneiro é engenheiro mecânico e de segurança do trabalho. Especialista, estudante e apreciador de cachaças. Colunista de cachaças da CBN Paraíba, com a coluna Confraria do Copo. Proprietário do blog Rótulo Brasil, onde trabalha pela valorização da nossa bebida nacional.

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