Blend: Tendência para a cachaça do Século XXI

Cachaças em processo de descanso/envelhecimento

O blend ou mistura, é um processo utilizado para quem deseja ter uma cachaça diferenciada e com uma identidade própria. Através dele consegue-se buscar a plena harmonia na cachaça.

O wisque, a tequila e o rum são destilados mundiais, envelhecidos no carvalho, e apenas no carvalho. A cachaça pode ser descansada ou envelhecida em mais de 30 madeiras catalogadas, além do carvalho, que não é madeira brasileira. Isso dá uma enorme complexidade sensorial à bebida. São tantos tipos e marcas de cachaça no mercado que fica difícil escolher. Existem  cachaças para todos os gostos e bolsos. Elas podem mudar tanto em relação ao aroma quanto ao sabor e à cor. Há aquelas brancas simples, ou com sabor mais adocicado, cores translúcidas ou douradas, outras com sabor mais suave, algumas apresentam baunilha, aromas de torrado, claras, escuras, sabor de canela, salgado…são milhares de possibilidades.

Mas, além dessa variedade grande de sabores, aromas e cores, vem um novo fator, que, cada vez mais, ganha corpo no mundo da cachaça, o blend.

 

O que é o blend de cachaças?

Os blends de cachaça são bebidas resultantes da mistura, em partes precisas e não necessariamente iguais, de duas ou mais cachaças originais – por exemplo, uma cachaça envelhecida três anos em barris de bálsamo com uma envelhecida cinco anos em carvalho americano. A proposta sempre é usar um pouco das características positivas de cada madeira, resultando em um produto com virtudes de equilíbrio e alguma originalidade. Como sabemos, o processo é adotado em larguíssima escala na produção dos wisques.

Fenômeno recente no negócio da cachaça, os blends não são “a moda do momento”. O que se vislumbra é que esta seja uma evolução da bebida, um novo patamar.

Mistura de madeiras

Existem aquelas madeiras mais fáceis de trabalhar como a amburana e o carvalho, que são as mais usadas. Elas transferem naturalmente paladares adocicados, já outras necessitam de um maior cuidado como a castanheira, bálsamo, jatobá, ipê e o jequitibá que se for muito novo pode transferir um paladar amargo.

Dito isso, quem faz o blend (o master blender) não pode ficar restrito a algumas madeiras apenas e sim misturar os diversos tipos de madeiras que são trabalhadas na maturação das cachaças. Isso vai gerar sabores que criarão uma bebida com personalidade, provocando sensações diferentes no consumidor, especialmente entre aqueles que estão em busca de novas experiências em relação à cachaça. É claro que as misturas das bebidas não pode ser aleatória, há que se cuidar do equilíbrio, evidenciar alguns sabores e suavizar outros, melhorando sempre alguns aspectos que o master blender quer dar à cachaça.

O blend é mais um diferencial

Produzir com qualidade é requisito básico, não conta como diferencial no atual estágio da cachaça. Cachaças de alto nível se contam às centenas e em quase todos os estados brasileiros. Diante disso os produtores procuram formas de se destacar entre os iguais – embalagens diferenciadas, ações de reforço da imagem, degustações em feiras e eventos. Partir para os blends de cachaça é mais um diferencial que, paulatinamente, vai tomando conta do setor e se tornando, muito mais do que uma simples tendência, um movimento unificado que tende a levar e elevar a cachaça a níveis muito superiores dos que vivenciados atualmente, é algo que veio para ficar.

Desafios

Cachaça Pai Vovô

Um dos principais desafios desse processo é a necessidade de padronizar o produto para que ele sempre apresente as mesmas características sensoriais em todos os seus lotes. Além de ajustar o paladar, aroma e equilíbrio, para não ficar muito alcoólico ou muito amadeirado. Com o blend também trabalha-se o padrão de qualidade da cachaça. Se o produtor oferece uma cachaça aos seus clientes, é preciso que esse produto seja repetido em outros lotes, pois o consumidor criará uma expectativa em relação à sua marca que precisa ser cumprida.

Como cada barril terá uma cachaça dessemelhante, se o produtor cria uma “fórmula” com percentuais de barris diversos e a repete, terá, teoricamente, uma cachaça padronizada ao longo de uma safra.

Blends paraibanos

Arretada Mandacaru

A Paraíba já possui suas cachaças blendadas, e são excelentes bebidas. Uma delas é a cachaça Arretada Mandacaru. Um blend paraibano de cachaças em carvalho francês e carvalho americano. O mais legal dessa cachaça é o terroir paraibano. A acidez delicada, mas presente, faz com que ela mantenha o frescor característico das lindas cachaças produzidas em nosso estado. Produzida pelo Engenho Nobre, ela conquistou a primeira premiação internacional de uma cachaça paraibana. Recebeu medalha de prata num dos maiores concursos de destilados dos EUA, a World Spirits Competition 2019 (SFWSC), em São Francisco, na Califórnia.

Outro blend paraibano é a Cachaça Pai Vovô , nascida na aridez do Sertão paraibano. Esta foi, em 2019, uma das cachaças mais premiadas do Brasil, tendo conquistado duplo ouro no 17° Concurso de Vinhos e Destilados do Brasil (SP) e o título de Superior Taste Award, no International Taste Institute, em Bruxelas, Bélgica. Além desses dois prêmios somam-se outros em nível nacional e internacional. As madeiras utilizadas são o carvalho francês, o carvalho americano e a umburana, cada um com suas características e quantidades precisas. A soma das contribuições de cada madeira é maior do que se fossem produzidas individualmente, gerando uma bebida única e totalmente diferenciada.

Mais uma vez fica provado que a Paraíba nunca será coadjuvante no cenário nacional, quando o assunto for cachaça, e temos muito do que nos orgulhar por viver em um Estado tão fértil desse que é o nosso Destilado Nacional.

Maurício Carneiro

Maurício Carneiro é engenheiro mecânico e de segurança do trabalho. Especialista, estudante e apreciador de cachaças. Colunista de cachaças da CBN Paraíba, com a coluna Confraria do Copo. Proprietário do blog Rótulo Brasil, onde trabalha pela valorização da nossa bebida nacional.

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